Sites e aplicativos de celular apressam o fim do papel-moeda

Cada vez mais difundidos, sites e aplicativos para celular facilitam a vida das pessoas, reduzem os custos e aumentam a segurança das transações. Número de cédulas e moedas em circulação, contudo, ainda é crescente

O amplo processo de digitalização da última década, envolvendo sites, aplicativos e o próprio setor financeiro, mudou a forma de consumo das pessoas e colocou em xeque a existência de moedas e cédulas como formas de pagamento. Ainda que seja cedo para falar no fim do dinheiro em espécie, já que milhares de pessoas ainda utilizam cédulas frequentemente para pagar suas compras, não há dúvida de que, em algum momento do futuro, elas ficarão obsoletas. Há quem vá além e preveja o fim dos cartões, pois hoje já é possível efetuar pagamentos via celular, por exemplo. E é só o começo.
Segundo especialistas, os próximos anos prometem muitas mudanças para os consumidores. Esse é o tema da série de reportagens O Fim do Dinheiro, que começa a ser publicada hoje pelo Correio. De um lado, os dados do Banco Central (BC) mostram que o número de cédulas e moedas em circulação estão aumentando ano após ano. De outro, os analistas acreditam que não faz mais sentido manter uma estrutura cara para viabilizar o uso de dinheiro em espécie.
Fazer dinheiro custa dinheiro. Para produzir mil cédulas de R$ 100, há um gasto de R$ 322,26. A mesma quantidade de moedas de R$ 1 gera um desembolso do Estado de R$ 467,70. Isso mostra que parte significativa do valor é perdida no processo de produção. Para as novas gerações, já não faz mais tanto sentido levar notas e moedas na carteira. É o caso do estudante de engenharia de produção da Universidade de Brasília (UnB) Matheus Freire, 20 anos, um dos adeptos da carteira digital — que permite que pessoas façam transações financeiras por meio dispositivos eletrônicos.
Freire diz serem raríssimas as vezes em que precisa ir até uma agência bancária. “Evito ao máximo. O deslocamento é ruim, toma tempo da minha rotina, além de contabilizar os minutos na fila”, destaca. “Tenho usado muito o celular para pagamentos. Quando vou à academia, por exemplo, não levo cartões. Quando faço um pagamento, só pressiono a digital, que já memoriza meus dados. É tudo muito prático”, diz. Além disso, segundo ele, ter dinheiro em espécie na carteira estimula gastos supérfluos.

Fim incerto

A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) avalia que não há estimativa de quando o dinheiro físico vai deixar de ser usado, mas entende que os canais digitais ganham cada vez mais espaço como alternativa a operações com papel-moeda. De acordo com a última edição da Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, o número de transações com movimentação financeira via ferramentas digitais subiu de 4,4 bilhões, em 2016, para 5,3 bilhões em 2017.
A entidade avalia que o movimento tende a se acentuar em função da praticidade e da segurança que as novas tecnologias possibilitam. Mesmo assim, dados do Banco Central (BC) mostram que, atualmente, há um volume de 6,27 bilhões de cédulas circulando no país, o equivalente a R$ 232,7 bilhões. Esse número vem aumentando. Em 2011, por exemplo, havia 4,48 bilhões de notas, no valor de R$ 136,11 bilhões.
Uma das razões que podem explicar o aumento é a falsa sensação dos comerciantes e da população de que os pagamentos feitos com cédulas e moedas não têm custo, ao contrário de outros meios, que cobram algum tipo de tarifa. “A visão de que o dinheiro não tem custo é equivocada. Desde a produção das cédulas até a sua distribuição nas agências bancárias, há um custo elevadíssimo que as pessoas desconhecem”, explica Walter Faria, diretor adjunto de Operações da Febraban. A diferença é que essa despesa não fica em cada transação: é dividida por todos.
De acordo com a Febraban, os bancos investem anualmente cerca de R$ 9 bilhões em segurança das agências, o que corresponde ao triplo do que era investido dez anos atrás. “Isso é feito devido à necessidade de manter grandes volumes de numerário nas agências para atender à população”, explica Faria. “Desincentivar o uso do dinheiro em espécie e definir um teto de valor para saques reduziria os custos com transporte e distribuição de numerário e com segurança das agências — além de contribuir para a redução de assaltos, que ocorrem especialmente com pessoas de mais idade, que, quando portadoras de dinheiro em espécie, podem ser alvo de assaltantes, golpe muito conhecidos como saidinha de banco”, acrescenta o diretor.
Realizar um pagamento nunca foi tão fácil para o consumidor como nos dias atuais. Segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), no terceiro trimestre de 2018, as compras com cartões de crédito, de débito ou pré-pagos cresceram 14,7%, em comparação ao terceiro trimestre de 2017. É o maior avanço desde 2014. No período, a população brasileira movimentou R$ 391,1 bilhões em transações, com maior peso para o cartão de crédito: R$ 244,4 bilhões. Entre janeiro e setembro de 2018, o volume transacionado foi de R$ 1,11 trilhão, aumento de 14% em comparação ao mesmo período de 2017, quando o valor foi de R$ 974,8 bilhões.
De acordo com o BC, no último trimestre de 2009, foram emitidos 224.602 milhões de cartões de débito. No mesmo período em 2017, o volume foi de 323.714 milhões — alta de 33,2%. No Distrito Federal, em 2009, existiam 66.627 pontos de venda onde ocorriam as transações. Nos últimos dados, referentes a 2017, o estoque cresceu 36,7%, alcançando 91.095.
O advogado Marcos Malaquias, 38, aderiu ao sistema digital e passou a lidar de outra maneira com o dinheiro após problemas enfrentados em um banco. “Antigamente, eu usava só atendimento físico para fazer transações, sacar cédulas e pagar boletos nos terminais eletrônicos. Eu tratava, constantemente, com gerentes”, conta. Ele percebeu que perdia muito tempo dentro das agências e, com uma filha de oito anos, decidiu otimizar o tempo e conciliar o trabalho com a vida pessoal.
“Devido aos compromissos profissionais, precisei otimizar meu tempo. Transferi todas as movimentações para o meio eletrônico, rentabilizando o uso da minha conta. Faço tudo pelo celular e internet, agora”, diz Malaquias. O advogado ressalta também que preza a segurança ao não andar com cédulas na carteira. “Todos esses aplicativos oferecem a praticidade de permitir compras por meio de cartão. Até por segurança, e otimização de tempo, evito, assim, escolher outros meios. Já tenho tudo cadastrado e o sistema é seguro. Em um dia, consigo fazer muito mais coisas do que fazia antes”, completa.
* Estagiário sob supervisão de Odail Figueiredo/ 

Hamilton Ferrari

GP Gabriel Ponte * – Enviado Especial

Correio Braziliense